segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

MEU LAR É ONDE ESTÁ MEU CORAÇÃO

ENQUANTO A SUA BOCA AINDA ESTIVER VERMELHA

Beije
enquanto a sua boca ainda estiver vermelha
ame
enquanto a noite ainda esconde o pavoroso amanhecer

Tuomas Holopainen(Nightwish)


Use sempre um chapéu para ir à rua
saiba identificar os meus sinais
pois sou eu esse vento na varanda
o circuito na casa e essa fumaça
em tua vida desligando a luz

Estou perto de ti aonde fores
já não há mais limites entre nós
pois sou eu essa voz subterrânea
a volta do desejo em tua pele
e a intermitente sensação de paz

sábado, 27 de dezembro de 2008

OUIJA

Falar com os que partiram
prática tão antiga
você jogando o copo
em busca de seu pai
as letras sobre a mesa
um jogo de menino
rodeado na terra por visões

PODER SOBRE O DESTINO

ODE AO OBSCURO

MANUAL DE INVOCAÇÃO

SENTIDO SUBTERRÂNEO

TRATADO SOBRENATURAL

A MAGIA HIPNÓTICA DO SONHO METAFÍSICO

PARÓDIA DO JUÍZO

Enfim era divina no teu limbo
a palavra do anjo comissário ?
E ao partir retornou ao teu domínio
o anterior a ti que te faltava ?

METÁFORA DA PASSAGEM

GENEALOGIA DA MEMÓRIA

TEOREMA DO DELÍRIO

DE ONDE VOCÊ ESTÁ

Como somos amados e lembrados
é possível falar pela memória
pela recordação da sua alma
ou tudo vai embora nesse corpo
recoberto por flores numa caixa
de madeira fechada sobre a tarde ?

DRAMA NOTURNO DE ONIRISMO NÓRDICO

Quando ela te arrastou de madrugada
soubeste que partias e choraste ?
em que momento percebeste amado
que outra dimensão nos separava ?

Agora é caminhar entre os circuitos
ninguém pra me ver ao fim da escada
não ter com quem falar a minha história
e essa impressão de que não foste embora

SHAMBALLAH

O sol central
as aberturas polares
e a formação da aurora boreal
o reino intraterrestre o disco azul
o coração da Ásia no mosteiro do Tibet
e o mundo precisando de transformação.

domingo, 21 de dezembro de 2008

ROSALÍA DE CASTRO E SYLVIA PLATH

eu bem que poderia ir embora
te imaginar em outra dimensão
deixar tudo isso aqui em boa hora
agora que retornou a solidão

mas algo me diz para que eu fique
e arrume a casa que alguém vai chegar
e permaneço firme como Rosalía
poderia escolher ser Sylvia Plath

sábado, 6 de dezembro de 2008

COM A DELICADEZA NECESSÁRIA

as coisas não estão sendo tratadas
com a delicadeza necessária
ele falou e eu vi passar a minha vida em pânico
ontem elas gritaram a ponto de me adormecer o lado esquerdo
como a outra fazia nas noites da minha juventude
e eu adormecia pressionando os dedos nos ouvidos
sair de casa só mudou mesmo o jeito de sofrer
ainda está doendo a nuca e a memória
um amor se quebrou quando fiquei no chão do Kaluanda
e nas doloridas visitas pontuais em Casa Forte
suas mãos em meu pescoço de surpresa acabaram de enterrar
antes a faca era só um cenário de Almodovar
tudo o que você precisa saber sobre a sua mãe
saudade dos bordados da capa do Marrocos
sonho desintegrado agora o corpo renasce
aos poucos todo marcado da dor inenarrável
tatuagem biográfica no livro humano
e a samaritana consegue tirar o hábito italiano
retoma o esplendor oculto intermitente
três gerações de chibata não são necessárias
ela vai fugir a qualquer momento em seu palanquim vermelho
as coisas aqui nunca foram tratadas
com a delicadeza necessária
vida em pânico
identidade roubada
já não surge o riso cristalino no meio da catástrofe

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

MATERIAL DE DEMOLIÇÃO

recuperar ruínas
restauro ópera rock
antiga instalação pop
material de demolição

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

MONÓLOGO TARDIO

eu gostava do cheiro da sua pele
eu gostava do tom da sua voz
do seu silêncio doce pela casa
e fui levando as horas de pavor
fui superando o pânico das crises
quatro utis em peregrinações
máquinas domiciliares de glicose
máquinas domiciliares de pressão
o açúcar e o sal comum escondidos
mas apesar dos sustos e dos riscos
contava que me esperava para sempre
sem aquela pele fria na manhã da segunda-feira
no sábado eu toquei teu braço ouvindo sua respiração
sem saber que ela já era uma despedida
eu falei até amanhã à uma hora
mas tu foste de manhã logo cedo sem me esperar
eu tremia e chorava e não conseguia
vestir a tua roupa no domingo de sol
agora voltou minha ciclotimia
o meu pavor total das pessoas banais
e ninguém para rir das pessoas de plástico
e eu já não tenho mais com quem conversar
todos os dias o meu monólogo tardio
ninguém para me ouvir com sublime paciência
ao chegar do trabalho exausta e deitar no sofá
I wish you were here
dancei e cantei Pink Floyd na sua sessão de saudade
e houve mesmo quem dissesse que você estava entre nós
a doença veio não se sabe de onde talvez hereditária
eu dizia tudo o que não é fatal tem que ser controlado
mas depois as complicações não se entenderam mais
saí da universidade no meio da aula de teoria literária
de táxi no engarrafamento atrás da ambulância do hospital
lembro da placa dos quase dois meses em Canaã : 61
eu dando aula nos intervalos das visitas sob as árvores
na Praça de Casa Forte em meio às luzes do outro natal
e antes fora em Olinda Bairro Novo no São Salvador
você estremecendo ao me ver e retomar a consciência
e eu tomando isso como prova de um grande amor
às vezes penso que foi tudo culpa mesmo da linguística
o nome Alfa era um aviso que eu não soube decifrar
regressão em estado Alfa vidas passadas o transe dos xamãs
passividade e pacificação clarividência telepatia premonição
mundo alfa estado intermediário entre o sono e a vigília
mundo alfa espaço sagrado onde habita a harmonia
mundo alfa começo de onde vem a fonte
você frente a frente com o seu fim
ontem entraram no apartamento dois passarinhos
e ficaram voando pela casa em contraponto
na véspera da sua ida entrara um passarinho doente
ficou no quadro da ponte do Porto e conseguiu sair
a casa está impregnada de você
a sua voz me chamando no mezanino
você vendo toda noite os noticiários de todos os canais
assistindo comigo documentários e filmes europeus
e ultimamente preferindo os nacionais do Canal Brasil
você um sociólogo resgatado do cenário underground
segurei trinta anos toda a carga da nossa vida prática
e empurrei sozinha até uma hérnia carros intermináveis de supermercado
protagonizando empregos difíceis e causando estranheza ao senso comum
trazendo sempre para casa uma comida diferente ao voltar do trabalho
ainda que fosse a quilômetros de distância e descesse tarde da noite em estradas escuras
foram tantos os momentos e lugares onde desperdicei beleza e energia
eu que vestia as nossas filhas no Recife com roupas de Renoir
passeio agora com elas e os netos de Boa Viagem a Piedade
de Casa Forte à Cidade Universitária e ao Paço Alfândega
de Porto de Galinhas à Praia dos Carneiros e a Itamaracá
antes que recomecem todos suas viagens à Suécia e ao Ceará
e fico sem remédio na mesma cidade da minha infância solitária
com a mesma velha máquina de sonhos cotidianamente a me percorrer
caminho triste nesta casa e não sei o que irá me acontecer

AQUANDO

A realidade entra pela história, pela memória, pela literatura.