sábado, 6 de dezembro de 2008

COM A DELICADEZA NECESSÁRIA

as coisas não estão sendo tratadas
com a delicadeza necessária
ele falou e eu vi passar a minha vida em pânico
ontem elas gritaram a ponto de me adormecer o lado esquerdo
como a outra fazia nas noites da minha juventude
e eu adormecia pressionando os dedos nos ouvidos
sair de casa só mudou mesmo o jeito de sofrer
ainda está doendo a nuca e a memória
um amor se quebrou quando fiquei no chão do Kaluanda
e nas doloridas visitas pontuais em Casa Forte
suas mãos em meu pescoço de surpresa acabaram de enterrar
antes a faca era só um cenário de Almodovar
tudo o que você precisa saber sobre a sua mãe
saudade dos bordados da capa do Marrocos
sonho desintegrado agora o corpo renasce
aos poucos todo marcado da dor inenarrável
tatuagem biográfica no livro humano
e a samaritana consegue tirar o hábito italiano
retoma o esplendor oculto intermitente
três gerações de chibata não são necessárias
ela vai fugir a qualquer momento em seu palanquim vermelho
as coisas aqui nunca foram tratadas
com a delicadeza necessária
vida em pânico
identidade roubada
já não surge o riso cristalino no meio da catástrofe

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