quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

MONÓLOGO TARDIO

eu gostava do cheiro da sua pele
eu gostava do tom da sua voz
do seu silêncio doce pela casa
e fui levando as horas de pavor
fui superando o pânico das crises
quatro utis em peregrinações
máquinas domiciliares de glicose
máquinas domiciliares de pressão
o açúcar e o sal comum escondidos
mas apesar dos sustos e dos riscos
contava que me esperava para sempre
sem aquela pele fria na manhã da segunda-feira
no sábado eu toquei teu braço ouvindo sua respiração
sem saber que ela já era uma despedida
eu falei até amanhã à uma hora
mas tu foste de manhã logo cedo sem me esperar
eu tremia e chorava e não conseguia
vestir a tua roupa no domingo de sol
agora voltou minha ciclotimia
o meu pavor total das pessoas banais
e ninguém para rir das pessoas de plástico
e eu já não tenho mais com quem conversar
todos os dias o meu monólogo tardio
ninguém para me ouvir com sublime paciência
ao chegar do trabalho exausta e deitar no sofá
I wish you were here
dancei e cantei Pink Floyd na sua sessão de saudade
e houve mesmo quem dissesse que você estava entre nós
a doença veio não se sabe de onde talvez hereditária
eu dizia tudo o que não é fatal tem que ser controlado
mas depois as complicações não se entenderam mais
saí da universidade no meio da aula de teoria literária
de táxi no engarrafamento atrás da ambulância do hospital
lembro da placa dos quase dois meses em Canaã : 61
eu dando aula nos intervalos das visitas sob as árvores
na Praça de Casa Forte em meio às luzes do outro natal
e antes fora em Olinda Bairro Novo no São Salvador
você estremecendo ao me ver e retomar a consciência
e eu tomando isso como prova de um grande amor
às vezes penso que foi tudo culpa mesmo da linguística
o nome Alfa era um aviso que eu não soube decifrar
regressão em estado Alfa vidas passadas o transe dos xamãs
passividade e pacificação clarividência telepatia premonição
mundo alfa estado intermediário entre o sono e a vigília
mundo alfa espaço sagrado onde habita a harmonia
mundo alfa começo de onde vem a fonte
você frente a frente com o seu fim
ontem entraram no apartamento dois passarinhos
e ficaram voando pela casa em contraponto
na véspera da sua ida entrara um passarinho doente
ficou no quadro da ponte do Porto e conseguiu sair
a casa está impregnada de você
a sua voz me chamando no mezanino
você vendo toda noite os noticiários de todos os canais
assistindo comigo documentários e filmes europeus
e ultimamente preferindo os nacionais do Canal Brasil
você um sociólogo resgatado do cenário underground
segurei trinta anos toda a carga da nossa vida prática
e empurrei sozinha até uma hérnia carros intermináveis de supermercado
protagonizando empregos difíceis e causando estranheza ao senso comum
trazendo sempre para casa uma comida diferente ao voltar do trabalho
ainda que fosse a quilômetros de distância e descesse tarde da noite em estradas escuras
foram tantos os momentos e lugares onde desperdicei beleza e energia
eu que vestia as nossas filhas no Recife com roupas de Renoir
passeio agora com elas e os netos de Boa Viagem a Piedade
de Casa Forte à Cidade Universitária e ao Paço Alfândega
de Porto de Galinhas à Praia dos Carneiros e a Itamaracá
antes que recomecem todos suas viagens à Suécia e ao Ceará
e fico sem remédio na mesma cidade da minha infância solitária
com a mesma velha máquina de sonhos cotidianamente a me percorrer
caminho triste nesta casa e não sei o que irá me acontecer

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